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sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Doce pimenta do reino

Madrugada. Na rua onde moro ouço caminhões chegando pra montar a feira.

Feira livre de minha infância. Da nonna Maria que nas sextas-feiras me fazia de braço pro carrinho puxar. 

Ou junto ao meu pai, aos domingos, carregando as sacolas com as compras pra semana.

O cheiro de café moído na hora está em minha lembrança. Não havia supermercados. Somente empórios ou vendas. E a feira livre concentrava o melhor e mais variado comércio alimentício, além de roupas e sapatos. 

Muita coisa mudou, mas mantive o gosto pela feira. A patroa diz amém. Paciente, atravesso a extensão olhando os produtos em oferta. 

As barracas de verduras e legumes. Tomates vermelhos maduros, ideais para o saboroso molho da macarronada.

Berinjelas negras, polpudas, às vejo recheadas ou fatiadas, em camadas levadas ao forno.

Escolho alguns pimentões vermelhos que se transformam em tiras na composição da salada com alho e azeite.

Alcachofras. Nada me apetece mais do que tirar suas pétalas. Molhadas no tempero são o verdadeiro bem me quer.

O coro dos feirantes. O falatório. A pechincha. Brócolis, couve-flor, couve-manteiga, escarola, agrião, alface, mostarda, chicória... 

As frutas. O perfume dos pêssegos. Cores compondo longas bancadas. Laranjas, mixiricas, uvas, pêras, abacaxis, melões, bananas, maçãs. 

Quantas variações de alimentos. Como é rico o solo brasileiro, meu Deus.

Mãos plantam, cuidam, colhem, transportam e expõem. Chupo uma jabuticaba. Suculenta. Refletindo sobre origem e sabor, ouço a cantoria conhecida:  

- Au au au... baratinho que é legal. Saquinho de cinqüenta, e de real. 

São vozes conhecidas de uma dupla, cuja barraca vende condimentos; cominho, erva-doce, noz-moscada, e pimentas de todos os formatos.

Confesso que, semanalmente, dou ares não só em busca do alho e cebola vendidos ali. Há um outro ingrediente que me fascina.

Mãe e filha são as gentis vendedoras, alegres e cantadoras. Mas a jovem moça ao moer a pimenta do reino, inclinada à frente, girando a manivela da moenda – uh! - palpita volumosos seios em generoso decote.

Em casa, a mulher já bronqueou: 

- Homem! Pra que tanta pimenta do reino, se quase não uso no tempero?

Não posso explicar-lhe minha doce inclinação pela especiaria.

Na pimenta moída, um reino imaginário. Visão belíssima, qual a forma de adquirir o produto. 

Algumas vezes pra evitar a suspeição da esposa, esqueço o saquinho em banca qualquer. 

Hoje, repetindo a mesma medida, a moça veste camiseta branca de alças delicadas.

Oh, pimenta!

Atendendo ao pedido, a bela ligou um botãozinho e a moedeira elétrica fez o trabalho.

Malagueta em meus olhos chisparam!

Substituíram o moedor manual. Os seios em alto sem aquele movimento circular...

Perdoem-me, mas a pimenta do reino perdeu toda a sensualidade.

E a feira, embora a tenha como obrigação, ficou um tanto sem graça.    

Marco Pezão                   

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Um caso

 
Amarrada ao tronco da lima da Pérsia, ela encontrou seiva da boa.

E floresceu Miltonia.

Descoberta, e batizada pelo orquidófilo Charles Wentworth,  Conde de Fitzwilliam, e Visconde de Milton, que viveu entre 1786 e 1857.

Presumo que, deslumbrado ante a beleza e suave exótico perfume dessa flor, o inglês afeminou o nome e o Milton virou Miltonia.

Nativa, reproduzida em vários gêneros e tonalidades, enflora da Argentina à América central.

Cuidada e querida, aqui no jardim do nosso quintal, ela tem a forma de pêndulo.

Um cacho.

Um caso de amor perfeito.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Lady de la noche!

Uma simples estaquia iniciou o processo lento, criador.

Solanaceae, família numerosa. 3000 espécies em 10 gêneros.

Como imaginar, diante de sua formosura, que fosse parente de pepinos, tomates e o tabaco?

Teu corpo em hastes espalma folhas disformes, viçosas. De onde se alongam estipes curvas, sustento de vistosos bagos.

Uma hidra com 13 cabeças. 

Ao lado do canteiro, deslumbramos o mistério. 

Na Índia ou nas Américas, pri-ma-dona do prazer noturno. Feito strip-tease valoriza cada peça que tira.

Do luar, amante. Sépalas, pétalas agitam-se e abrem-se em cadência estelar.

Até que, esplendorosamente nua, sua fragrância suaviza o ar e nos embriaga.

Translúcida, branca. Delicados fios expõem o creme do pólen.

Além da brisa, que bichos de hábitos noturnos vêm te polinizar?

Exótica, não fosse tóxica, lamberia o mel.

Pois, segundo a crença, teu óleo revigora o estigma sexual. 

Cestrum Nocturnum, Dama de La Noche, Lady of the Night, Medeia que nossos olhos vidram. 

Invadimos a madrugada e, chapada, minha dama, entre lençóis, se recolhe.

Sigo atrás do acalanto.

Mas, antes, pela vidraça da porta, invejo a mariposa que sobre sua flora esvoaça.

Abertas as cortinas, o sol. E as flores repousam lânguidas e murchas.

Sábia natureza;

Para intenso ardor, uma noite basta!


sexta-feira, 10 de maio de 2013

Salve todas as mães. E a do juiz também!

Em conversa sobre o tema, um disse: 

- Dias das mães é todos os dias. Isso é coisa de comércio, pra vender. 

- Tá certo, disse o outro; mas é importante ter uma data para elas serem homenageadas.

E o primeiro Dia das Mães aconteceu nos Estados Unidos em 9 de maio de 1914, já comemorado no segundo domingo. A passagem celebra também a maternidade.

E, por falar em maternidade, àquelas sempre lembradas nas partidas de futebol em coro esplêndido.

Geralmente associadas aos infortúnios dentro de campo, fica nossa gratidão.

Mãe de juiz de futebol varzeano deve ser celebrada duas vezes.

E as mulheres, e as esposas que acompanham e torcem por seus maridos masters e veteranos, que parceiras...

E as mães dos presidentes de clubes, dos diretores, dos carregadores de sacos, dos jogadores, dos donos de botecos, do retratista, da mulher do Maurão da Barraca que, na sua ausência, serve a gelada.

E nunca esquecendo as mães dos torcedores. Essas são verdadeiras santas.

Têm, ainda, as mães dos amigos que não gostam de futebol. Daqueles que não conhecemos, e os que jogam vídeo game.

E tem um monte de mães aqui em Taboão. E às mães de Taboão, e fora dele, muito amor.

Todas merecem servidão neste domingo. Mas, na várzea? Aposto e ganho. Com cerveja, sem folga, tá todo mundo com jogo marcado.

Ô meu amigo! Seja no deslumbre do gol. Na vitória ou derrota do time. Todas as mães são belas.

Só não pode deixar de ir almoçar na casa da sogra; aí a coisa fica feia!

Acordando fotos dormidas no baú encontrei a Rose, poeta e artista da Cooperifa...

sexta-feira, 6 de julho de 2012

São Jorge, timão, guerreiro campeão!

 Tabu foi feito pra ser quebrado. Corinthians conquista a América...

O médico o conhecia. Vendo os exames, falou firme:

- Antonio, se daqui pra frente você colocar um copo de bebida na boca. Uma gota de álcool, que seja: é vela e caixão. Teu fígado está prestes a virar geleia. Parece que não quer ver o Corinthians campeão da Libertadores?

Medicado e recomendado chegou a casa. A mulher ouviu o desabafo e se preocupou com a criação do casal de filhos.

À noite, Antonio vestiu a camisa alvinegra. Tomou chá e os comprimidos. Assistiu no rádio o empate de 1 a 1, na estreia, contra o Dep. Táchira.

Não perdeu, tá bom. Mas maldisse a si mesmo quando se lembrou do litro de cachaça escondido: Pô, nem um gole?

Já no sexto jogo da fase de grupos, o timão sem perder, Antonio se medicou com prazer após a goleada de 6 a 0, no jogo de volta, contra o mesmo Táchira. Voltou a caminhar pelas ruas e titubeou quando um amigo o convidou pra tomar uma.

O apego a São Jorge. A flâmula no altar. A lamparina acesa. Mataria um dragão por dia pra ver o Corinthians campeão. Agradeceu e retornou contando a campanha na mente: 4 vitórias e dois empates.13 gols marcados e dois sofridos.

Melhorava aos poucos. Resistia. A abstinência causava pesadelos. Nas quartas de finais satisfez-se com o empate zerado em São Januário. 

O lance do Diego Souza e o goleiro Cassio, que, com a ponta da luva mudou a trajetória da bola, quase o levou a uma recaída. Foi salvo pelo gol de Paulinho e a classificação por 1 a 0.

Dores o incomodavam nas semifinais na baixada santista. E se o Santos aprontasse alguma molecagem? Temia. 

Mas vendo a postura do seu time. O empenho. O golaço do Sheik. A união dos jogadores transbordando além-campo. Sentiu-se confiante e tomou suco de laranja.

Na partida seguinte, quando ouviu o silêncio fúnebre no estádio, após o gol de Neymar, Antonio se apegou ao santo. Pediu carona no cavalo branco. Segurou a lança numa das mãos e na outra a aguardente, caso necessitasse de suicídio.

Danilo, Danilo, Danilo, balbuciava dormindo no sofá. O martírio estava chegando ao fim. Enfim, o Coringão decidia a história!

E veio o Boca Junior. Irritante Bambonera não se cala. O resultado adverso de um a zero. O tremor nas mãos. Sua via crucis. O livre arbítrio. Nem um gole? Árbitro desgraçado, não vê como eles jogam sujo?

Chegou a levantar-se em direção ao esconderijo. Romarinho entrara no jogo e recebeu passe de Sheik. Invadiu a área, e com uma cavadinha sobre o goleiro argentino marcou um golaço, trazendo, de quebra, Antonio em repouso à poltrona.

Na quarta-feira seguinte, o Pacaembu totalmente tomado. É hoje! É o fim da peregrinação. Bola rolando e nem o antijogo dos hermanos foi capaz de desestabilizar a homogênea equipe alvinegra. Sheik, promovido a monstro sagrado, marcou duas vezes.

Apito final. O inédito troféu inundava-se em lágrimas dos fieis guerreiros. Rojões iluminam cânticos em glória. A noite virou dia. Antonio tem a voz embargada pela emoção. De joelhos, mãos estendidas em louvor a São Jorge seguram um copo cheio de pinga.

Seu pensamento: 8 vitórias e 6 empates. 22 gols marcados e 4 sofridos.  Eu estou vendo, doutor! Eu consegui! Meu Corinthians é campeão da América! E invicto! Chupa essa, berrou pro palmeirense vizinho.

Com os olhos arregalados em profunda sede, levou o copo à boca. Em ritual, cheirou a bebida e saudou o santo. 

- Meu Deus! gritou paralisado quando o dragão expeliu enorme facho de fogo. Atônito, ouviu São Jorge esbravejar:

- Não quer ver o Corinthians campeão do mundo, Antonio?

Sorriu na manhã seguinte. Beijou a mulher e as crianças. E o sonho por mais um título recomeçou.

Emerson Sheik honrou o manto sagrado.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Onde está Deus?

- Opa, ainda bem. A avenida Francisco Morato está livre e podemos acelerar um pouco mais. Conversando com a 125 noto o Valdomiro, serralheiro, sujeito alegre. Com ele, por perto, há sempre uma boa história pra se ouvir...

- Ainda, o Jardim Santa Clara conserva tranqüilidade de cidade do interior.
Bairro pequeno, afastado do centro, têm no máximo três mil habitantes.

Na praça, em frente à capela, os jovens se encontram. Ouvem músicas, cantam, dançam, e não raro os amores florescem entre os casais.


Adiante, a sorveteria do Gaspar. O concorrido cinema. O teatro onde companhias se instalam em temporadas. Ocupando a esquina principal, a antiga padaria do seo Manoel produz o melhor pão de milho de toda região.


Sim, Santa Clara se mantém quase alheia às transformações da vida moderna. Pena que a televisão vá modificando o sotaque ali característico.


Mesmo assim, mantendo a tradição, as famílias conservam hospitalidade e se reúnem para o almoço domingueiro ou festejo de dia santo.


O fato é que próximo da praça, numa rua transversal, mora dona Tereza. Mãe de dois filhos, cujo marido meteu-se em negócio de caixeiro viajante e sumiu a vista de todos.


Ela, senhora de trinta anos, encara as dificuldades com talento no preparo de doces e salgados.

Simpática e cuidadosa consegue dar sustento a casa, e aos meninos Toninho e Agenor, de 11 e 9 anos.


Verdadeiros pentelhos. Pois não há duas pequenas almas mais endiabradas. Arte praticada por adultos é obra. Se por crianças é travessura. No lugarejo, a dupla é amplamente reconhecida.


Choque elétrico em gatos. Rato na gaveta da mesa da professora. Sapos nas mochilas das colegas de classe. Trocas de material escolar. Sumiço de lanches...


Nó em roupas penduradas nos varais. Fechaduras de portas tampadas com chicletes. As brincadeiras valem reprimendas, mas eles não se emendam.


Pneus de carros esvaziados. Assentos do cinema lambuzados de graxa. Nem a batina do sacristão é poupada. Um dia apareceu cheia de açúcar e repleta de formigas.


Até o vinho sagrado fora substituído por refresco.


Tudo que é peraltice, Toninho e Agenor praticam.


A ausência do pai é a explicação dos temperamentos arredios. Em consideração a mãe, a vizinhança é paciente.


São crianças, explicam. Amanhã ou depois tomam jeito. É certo, porém, que umas boas palmadas não iam mal!


Dona Tereza é incapaz de levantar a mão aos filhos e sofre. Pois qualquer caso inusitado que aconteça no vilarejo, de imediato os culpados são eles.


Mas eis que um padre austero assume a igreja local. Traz fama de exigente quanto à disciplina das ovelhas rebeldes do rebanho de Cristo.


Por conselho das vizinhas, dona Tereza resolve enviar Toninho e Agenor a uma sessão. Padre Afonso é alto e forte. Tem olhos miúdos, a barba cerrada e a cara quadrada.


Não ri por nada. E seu oficio é regido de forma incontestável.
Sabedor das traquinagens dos guris, o severo vigário segura uma vara de marmelo defronte ao altar.

Ambos chegam temerosos, e notam falta das imagens nas paredes. Não sabem que estão sendo restauradas.


De feitio peculiar, a pergunta inicia o sermão. Padre Afonso encorpa a voz e brada:


- Onde está Deus?

A resposta: Deus está em nossos corações não veio.
Os meninos ficam parados e não dizem nada.

Com os braços estendidos acima da cabeça, o clérigo vibra intencionalmente a vara no ar:


- Onde está Deus? - Repetiu em tom rigoroso.


Um duplo susto. Os meninos não esperam por mais. Saem correndo da igreja e só param em casa quando dentro do guarda-roupa.


Dona Tereza, que já se preocupava com a demora dos filhos, os encontrou trêmulos:


- O que aconteceu?


- Mãe, agora a gente tá encrencado! Deus sumiu, e o padre acha que a culpa é nossa!


- Muuugi boi, muugi...


- Cócórócócó...


- Mééééé...


Marco Pezão (midraxe hagadá)

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Dilema

- Ultrapassa, dona! Está com medo de quê? Dá pra passar uma jamanta! Dei seta à esquerda e a senhora não viu! Vai, vai com Deus...

Agora não bichão! Agora sou eu. Pode buzinar à vontade. A preferencial é minha...


No retrovisor dou uma geral nos passageiros e a lotação está quase completa. Reconhecendo semblantes, percebo os que fazem hoje o percurso.

Quantas histórias permeiam sentimentos confusos abrigados no íntimo? Um contêiner em movimento carregando sonhos e dramas.


O principal desafio no amor é conviver com as limitações de cada um, não é não casal vinte? Sentados à esquerda, ambos mantém os olhos voltados pra janela, pintando nova paisagem além dela.


Em ser resultado de circunstâncias. Circunstâncias que operam, imperam, e cedo ou tarde pedem respostas. Desta luta não há como correr. Os rounds são aflitos. O eu deve sair vencedor ou o corpo tomba vencido.

Alexsandro Papel tem a cabeça recostada e os olhos fechados. Não dorme. Trilha o fio da amargura. Hesita o passo e sabe que é preciso prosseguir pra resolver de vez o estranho dilema.


- Que ventre me pariu? Que ventre me pariu? Que ventre me pariu? Não tenho resposta. Quem me pariu? Só uma coisa é certa. Foi uma boceta que me pariu. Cagado é que não fui. Impossível localizá-la?

Mãe! Quem, diabos, é minha mãe?


- Aproveito o farol vermelho pra dizer que a pergunta sem a devida resposta é o martírio vivido por Alexsandro.

Menino bom, bem criado, apesar da ocorrência inédita em seu desenvolvimento desde a inseminação e gestação.


- Bebê de proveta! Bebê de proveta! Bebê de proveta! Inseminado! Eu não fui trepado. Eu vinguei punhetado!

Egoístas. Egoístas é o que eles são. Nunca mais quero vê-los. Não me dão o direito de conhecer o verdadeiro pai, quanto mais a pobre moça transformada em barriga de aluguel.

- Dona, a senhora desce essa rua e vira à direita. A Assistência Social é logo em frente. Por nada, tchau!

No caso do Alexsandro deu pra sentir o drama? Os pais só revelaram a verdade sobre sua origem quando o jovem ingressou na faculdade.

Até então, ele acreditava que fora adotado por consequência do falecimento materno.

E não esperavam uma reação tão intempestiva. Em poucos meses o estresse falou mais alto e Alexsandro largou tudo.

Estudo, roupas, sapatos, livros. Saiu com a vestimenta do corpo e algum dinheiro usado pra alugar o cômodo e cozinha pra morar.

Mas, mesmo distante do motivo que o transtornara, nada adiantou. O problema está nele.


- Tiveram a pachorra de se masturbarem. Depois pegaram as porras e as misturaram no mesmo tubo de ensaio.

Efetuada a análise e o processo seletivo, qual espermatozóide ganhou a condição de ir fecundar o óvulo da minha mãe desconhecida?

Quem é meu pai?


O meu próprio nome é fruto dos dois. Alex e Sandro. Do nome deles nasceu o meu: Alexsandro Carvalho Amorim. Carvalho de um. Amorim do outro.

Pedi que fizessem o exame DNA. Eu quero saber em definitivo, quem é meu pai? Já que não posso conhecer minha mãe!

E qual foi a resposta? Disseram, você é privilegiado. Têm dois pais que são duas mães só pra te paparicar. Tudo, com eles, é brincadeira:


– Olha, Alex, os olhos do Sandrinho. O jeito de olhar é seu.


- Ah, Sandro! Todo mundo diz que a testa dele é sua. Sem tirar nem pôr.


- Ô 125! Faz esse povo andar! Vamos liberar a passagem, gente!

É complexo o caso do amigo. Os pais, homossexuais, decidiram ter, criar, e amar um filho só deles. Conceituados em suas carreiras, um é médico e o outro advogado, utilizaram meios modernos para realizá-lo.


- Se ao menos tivessem guardado o endereço da moça minha mãe. Não importa ser tecnologicamente projetado. Permitissem visitá-la!

Pude sentir o bico do seio dela amamentando minha boca, durante quanto tempo? Três meses e então secou o leite? Não posso acreditar que depois, secado o leite, seco estava o amor de minha mãe?

Nunca mais, em nenhum momento, houve por bem pensar em mim? Não creio que exista mãe assim. Eles, sim, são culpados.

O dinheiro tudo compra. O suborno tange o silêncio. Alugaram a barriga dela como se compra um guarda roupas? Minha doce mãezinha pudera te conhecer...

- Ô motorista! Não cabe mais gente aqui não. Vai parar em todo ponto?


- Falta de consideração!


- No fundo do ônibus tem lugar vazio! Tá todo mundo na catraca. Ô 125, parece que você tem mel?


- Tem um homem encalacrado aqui no meio! Força, meu senhor, é preciso desobstruir a passagem!

Acho que não vai dar, 53! O homem é muito gordo. Não passa na catraca. Vai ter que voltar e descer pela porta dianteira.


- Meu Deus do céu, agora enfezou. Nem pro baixo e nem pra riba.


- Se der atenção aos ocorridos, chora e ri. Dou meu ouvido, mas entra de um lado e sai do outro. Nem sempre, é certo. Têm histórias comoventes, doentes, excitantes, que me fazem pensar.

No caso de Alexsandro, a ferida existencial segue exposta.


- O dinheiro me proporcionou as melhores roupas. Colégios particulares. Casa na praia. Carros. Conforto.

E não posso deixar de reconhecer o carinho e cuidados com meu bem estar. Sim. Eu gostava daquela mutação diária.

O Sandro tornava-se Sandra. O Alex travestido em ternura aduladora. Confesso, em soberbo amor me deleitei. Os via como duas mães, só minhas. Ora eram dois pais somente meus.

Sentia-me pleno, seguro sob as asas daquela estranha paixão. Amavam-se sinceramente, abertamente, e não temiam observações maldosas sobre o amor que praticavam.


A casa, costumeiramente, recebia tantos amigos. Amigas zelosas, que, entre prosas e risos, me excitaram a descoberta do sexo.

Havia no quintal muitas plantas, os cachorros, e a paz teceu clima durante minha infância e adolescência.


Mas não posso deixar de observar e isso magoa. Não passo de uma experiência. O desenvolvimento de um bebê de proveta. Articulado e premeditado friamente.

Um clone satisfazendo desejos deles, banais!

A revolta fez liga em meu sangue, creio, oriunda do gen materno. Avancei adiante e olhando pra trás vi a redoma. Compreendi a falsa felicidade, na qual estive mergulhado quanto tempo.

Senti-me marionete, uma marionete, marionete, e entendi ser preciso cortar os fios atados àquelas mãos hábeis, manipuladoras, capazes de persuadir as regras de Deus.

Não! Eu serei o que quero ser! Se uma folha em branco significa ser alguma coisa, então sou! Do contrário, eu escrevo minha vida nela. Eu! Tomaram ciência? Eu! Enfim, o bebê saiu da proveta!

Sofram! Eu sofro também. Se ao menos pudesse saber quem é minha mãe? Qual ventre me pariu?


- O trânsito está infernal. Essa orquestra de buzinas não resolve, irrita, e o melhor a fazer é não esquentar a cabeça.

Alexsandro continua preso em sua concha. Repassa e examina anseios contraditórios. Chegará ao ponto final ou desce em meio ao fluxo e faz da multidão o habitual esconderijo?


- Quer chegar pra frente, por favor. Tem espaço ali e o senhor não sai detrás de mim?


- Não tenho culpa, moça. Está apertado. Dá licença que eu passo!


- Isca. Pega!


- Que cheiro esquisito é esse?


- Quem foi o cara de pau que soltou o pum?


- Muuugi boi. Muuugi boi. Muuuugi....


-Auuuuuu....

Marco Pezão

domingo, 4 de outubro de 2009

Um dia cheio

- Ponte danada, ao menos uns quinze minutos pro trânsito escoar. Vamos aproveitar pra ensaiar de novo. Temos que fazer uma boa leitura, hoje.

O subtexto é: somos apresentadores de um programa jornalístico, de tv. Voz feminina e masculina, intercalando. Você começa:


- Por volta das dezoito horas, o bar do Everaldo, no largo do Campo Limpo, zona sul, está com a televisão sintonizada. Vários fregueses bebem assistindo ao noticiário.


- Pela avenida Carlos Lacerda, ônibus e lotações passam transportando os moradores da região. A periferia paulista estende-se além da divisa com os municípios vizinhos de Taboão e Embu.


- Densamente povoado, os dilemas sociais são patentes. A carência de ganho real é o maior problema enfrentado por todos. Sejam jovens ou adultos. Homens e mulheres se equilibram no meio fio da vida.


- Rafael, trinta anos, moreno forte, exibe respeito. Ele entra no bar e cumprimenta as pessoas. Teve um dia cheio. Sem dinheiro pra cerveja, conta moedas e pede um rabo de galo. Acomoda-se ao canto no balcão, e começa a refletir...


- Viera ao posto de saúde trazer a companheira. Ela, Iracema, empregada doméstica, durante toda a noite sofreu com náuseas e tontura...


- De manhã, não foi trabalhar. Ficou prostrada na cama. Nas duas vezes que tentou ir a cozinha sentiu-se desmaiar. Fraca, só não caiu porque conseguiu apoio na pia.


- Voltou ao quarto com a ajuda da vizinha, que divide o mesmo pequeno quintal e, por sorte, estava estendendo roupas no varal em frente à porta aberta.


- Rafael chegou em casa às 13 horas. Havia saído em busca de trabalho. Ultimamente vive de bicos na construção civil, mas conheceu épocas melhores quando empregado metalúrgico.


- Foi alertado na entrada por dona Terezinha. Da necessidade em levar Iracema a um médico, o mais rapidamente possível.


- Tratou arrumar carona com amigos. Amparada, Iracema entrou no carro. E, logo depois, estavam sendo atendidos na sessão de emergência.


- Diante do estado dela, o atendente providenciou uma cadeira de rodas, que, Rafael, empurrando, a conduziu pelo corredor lotado de pacientes.


- Para sua surpresa, o atendimento fora rápido. Uma forte gastrite, talvez, diagnosticou o doutor. Porém, o pedido de um exame de gravidez o deixou preocupado...


- Pensou nas dificuldades de mais um sustento. Tinham dois filhos e a necessidade habitava a pequena casa alugada. Injetada a droga a fim de conter o vômito, levou a mulher para tomar soro.


- Foi preciso aguardar. A sala estava lotada, não havia sequer um lugar.


- De repente, um médico exige que Iracema se levante. Pois só havia aquela cadeira de rodas no posto e outro paciente, em pior condição, necessitava.


- Rafael, então, pediu uma cadeira comum. Não tinha nenhuma. Iracema não conseguia se manter em pé. Tocou voltar ao corredor e uma pessoa cedeu espaço no assento do banco.


- Passado o tempo, uma certa irritação começou a caceteá-lo. Reclamou mais de uma vez, até que surgiu uma vaga. Iracema ficou lá. Pálida, zonza, braço estendido, observando a conta-gota do frasco e o líquido canalizado à veia perfurada.


- Agora, enquanto aguardava, Rafael bebericava. Na tevê, o apresentador, aos gritos, anunciava mais uma rebelião na Febem do Tatuapé. Interessados, os clientes acompanhavam o desenrolar da situação.


- Centenas de menores ganharam o telhado da instituição. Desafiantes, haviam queimado colchões. Quebrado vidros e móveis.


- O locutor narrava toda espécie de adjetivos: “Estão queimando o dinheiro público. É o contribuinte que paga a conta dos safados”.


- Exigindo ação enérgica do governador, da polícia, bradava: “Temos que acabar com a desfaçatez desses bandidos.”


- Quando a tropa de choque se posicionou com cachorros, cavalos, escudos, armas e cassetetes, tendo a intenção de invadir; o delírio emitido na telinha atingiu os espectadores:


- Agora esses vagabundos vão ver o que é bom pra tosse.


- Rafael sentiu-se incomodado. Lembrou dos amigos que cruzaram a linha da lei e da ordem. Dos que estão presos. Dos que morreram. Pensou em quantas vezes esteve perto de empunhar uma arma e partir pro crime.


- Nunca o fez.


- Vê a reportagem desejando que os 1800 infratores se unam de mãos dadas no teto e chamem atenção às suas reivindicações. Que são também os reclamos de tantos milhões de brasileiros...


- Assim como ele, os filhos, Iracema. E todos os marginalizados dentro do próprio país.


- O sentimento, mistura de angústia e revolta, teve origem naquele instante. E desejou sair dali, o mais rápido possível.


- Nisso, casualmente, é interceptado por um homem: “Se eu sou o comandante da polícia, mando explodir tudo e acabo com essa raça de malandros”.


- Sem dizer palavra, Rafael não pensou. Desferiu portentosa cabeçada no nariz do sujeito, que, nocauteado, ficou estendido, sangrando, contorcendo-se em dor.


- Sob efeito da expectativa, todos no bar ouviram-no dizer, antes de sair:


- Povinho de merda!


- Muuuuugi boi...


- Mééééé...


- Cócócórócócó...


- Coin,coin, coin...


- Auauuuu...

Marco Pezão

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

O milagre do copo

Quanto mais penso, em dúvida maior fico. Será que sou um, dois em um, ou quantos na cabeça do pensar tomam parte?

Vai vendo. Eu repasso ideia pra carne não dormir. Que verdade se pode contar, que fantasia pode fluir?

- Ô motorista, abaixa o som! Eu quero ouvir a conversa, méééé!!!

- A viagem é longa, narrador de boa memória. Desfia tua história.

- Muuugi, boi, muuugi, boi...

- Cócorocó...

Em campo, na Vila Iasi, tarde de domingo ensolarado, as equipes do São Francisco e Bangu disputam uma vaga nas quartas de finais do concorrido campeonato de Taboão da Serra.

Lamentavelmente desfalcados, os times foram pro jogo sabendo que o empate mataria ambos abraçados.


Os torcedores divididos em distintos blocos alçam suas bandeiras e espalham olhares ansiosos por todo alambrado.


Roquinho, franciscano fiel, de coração corintiano, abandonou o prazer de ir aos grandes estádios, porém, mantém sua paixão pelo futebol varzeano. Compulsivo, não consegue ficar parado a um canto.


O confronto está duro de assistir. A bola, mordida e mascada, não chega aos atacantes. Roquinho coça a cabeça e se aproxima do boteco do Ebrinho:


- Ai, ai, ai, ai, ai: assim não vai, mas eu vou. Ebrinho! Põe aquela que matou o guarda, benta água pra aliviar a tensão. Quebra gelo da minha cerveja. Vê lá!

- Pura ou com limão?

- Cristalina.

Um copo em cada mão, e olho no jogo. Roquinho anuncia:

- O primeiro gole é do santo. Vai São Francisco!!!

Dá uma bicada. Em seguida outra. Pensamento firma e atento à jogada acompanha o meia Mauricio invadir a área, pela direita, pra arrematar no barbante:

– Gooool!!!

Roquinho, braços erguidos, agradece:

- Santa benzida, meu Deus. É gol! O meu santo não falha!

A vitória parcial de 1 a 0 motiva a peleja. O Bangu se lança ao ataque. O São Francisco recua. As divididas trincam mais fortes e irrita o torcedor:

– Esqueceu o cartão em casa? Juiz filho de uma quenga!

Malandramente, o árbitro controla o clima e encerra a etapa inicial.

- Quantos procriadores de gente lotam o ambiente? Não há pasto que chegue.

- Abre a janela pra ventilar a gripe suína, mééééé...

- Boi, segue sua prosa que a bola volta a rolar.

- Muuugi, boi. Muuugi, boi.

Roquinho está inquieto. O resultado mínimo o deixa aflito. Toma lugar ao balcão e pede:

- Ebrinho! Põe mais uma, no capricho!

Segue o ritual, benze o santo. E, ao inchar as bochechas, antes de engolir, teve as pupilas arregaladas diante do chute certeiro, no canto esquerdo, desferido pelo baixinho Lira.

Goool de empate, 1 a 1, vibra a torcida do Bangu.

- Não! Não! Não! Assim, não! Dá mais uma, Ebrinho, que o santo não entendeu! É pro lado de lá, meu santinho!

E tome Bangu! Forçando no ataque, buscando a virada. E tome a “marvada” goela abaixo, quando a bola em lançamento encontra o avante Ferreira, livre de marcação, frente ao goleiro são franciscano, em prenúncio fatal de gol:

- Meu santo, ficou bêbado, é? Entorta o pé do homem, entorta o pé do homem!

Com efeito, o chute saiu com defeito e pra linha de fundo a chance de gol é desperdiçada:

- Ô, meu Chico, fica são! Que susto! Ô santo milagroso, tá no fim do jogo e o empate nada adianta. Marca um gol pra mim que ao invés de um, eu te dou dois golinhos.

Bendita negociata! Rogério se antecipa à zaga e na saída do goleiro bate por cobertura. Arrepiante, a bola em declive descreve chuá na rede. Roquinho dobra os joelhos e no peito inflado desfere socos.

O grito ensandecido de gol fez saltar a artéria do pescoço, e apontando o dedo indicador para o céu profere vibrantes palavras:

- Nosso cavalo não é manco! São Francisco, porreta!

Rojões e abraços, o azul celeste celebra a classificação na vitória em 2 a 1.

Sapiência, dívida com santo se paga! A talagada escorre pela parede e causa indignação alheia:

- Que desperdício é esse? Tá cheio? Dá pra mim que eu tomo!

Mirando o nada, Roquinho engole o restante. Sozinho, caminha na algazarra formada ao longo do portão de saída.

O seu rosto estampa sorriso de quem sabe os mistérios. Com cerveja, leva a certeza que o milagre do copo acabara de ser concebido.

No após, enquanto no Jd Leme o povo se dispersou. No Pirajussara, invadindo a noite, o churrasco de costela, parte de um pernil de carneiro e asas de frango, ardem vitória no carvão...

- Mééééé!

- Cocorocó!

- Muuuuugi, boi..

Marco Pezão

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Cantando o amanhecer

Em sermos discriminados, nós fumantes apreciadores de um boteco. Na mesa, do lado de fora do bar do Neto, conversamos. Eu, Valentim e o Rogerio. Conversa vai, o trago vem. O celular do Valentim toca. O soar é de um galo cantando. Então, pra eles, relembro a crônica publicada na Gazeta do Taboão:

Cantando o amanhecer

Na sexta feira, minha mulher, florista, fazia os arranjos costumeiros. Cortava o cabo das rosas, em diagonal, para se hidratarem melhor.

A garagem transformada em floricultura abriga longo cotidiano, tempo fecundo de nossa relação. Não tanto economicamente, e, sim, por respeito e amor às atitudes adquiridas no convívio.


Na mesma calçada, a Cimecan, distribuidora de cimento, é relação de amizade sempre próspera.

Luiz, empregado de boa relação na vizinhança, chega ao nosso comércio tendo sob o braço um jovem galo:


- Dona Otília, um amigo, caminhoneiro, trouxe do interior e me deu de presente. Levei pra casa, mas, a senhora sabe, a dona Onça, quando viu o bicho aqui, ficou fula. Ela exigiu que eu o jogasse na rua. Então, estou trazendo pra ver se a senhora quer fazer proveito.


Não precisou falar duas vezes. Com o sorriso costumeiro abraçou o galeto e agradeceu. O levou pro quartinho que há no fundo de casa, pensando, claro, como boa cozinheira que é, em fazer uma panelada pro almoço domingueiro.


Quando cheguei à noite me fez saber a novidade. O penoso vermelho estava num canto, de crista empinada, receoso, talvez, quanto ao seu destino já traçado.


Na manhã de sábado acordei cedo e coava o café, como de costume. Surpreso fiquei ao ouvir o galo cantar, assim que o clarão do dia começou a surgir.

O bairro é totalmente urbanizado e há muitos anos que ninguém cria galinhas ou tenha um galo no quintal.


O trabalho me leva longe de casa todos os finais de semana. E o domingo já estendia a malha da tarde quando cheguei pro almoço.

Olhei a água fervente à espera do macarrão. E, noutra panela, o molho recheado de bracholas. Minha mulher estava sentada junto à mesa e antes que dissesse palavra, perguntei:

- O prato não é o galo?


Apontando a cachorra que ao meu lado abanava o rabo, bradou:


- Você não sabe o que a Mila aprontou? Fui ver o galo e deixei a porta um pouco aberta. Essa sem vergonha passou entre minhas pernas e avançou no coitado. O galo tomou um susto e voou sobre minha cabeça. Ela correndo, eu atrás, e ele com medo fugiu pra laje. De lá foi pra casa do “seo” Severino, depois pro telhado do “seo” Nelson, passou pela casa do sapateiro e se empoleirou no muro da Belíssima.


E, arrematou, ameaçando a cadela:

- Fora daqui, Mila! Se você entrar na cozinha, eu vou te dar uma surra, sua enxerida!

Subi na laje e não dava para avistar o fugitivo. Otília continuou:

- Fui lá no ”seo” Juan, o muro é muito alto. Pus milho no chão, agora é esperar ele descer na hora que der fome. Coitado do Pavaroti, vai passar a noite no relento.


- Pavaroti?


- É, apelidei o galo de Pavaroti. Ele canta tão bem.


A Belíssima, eu explico, é um
night club. Casa de muitas mulheres, drinques, coisa e tal. Fiz a piada. O galo Pavaroti, de bobo não tem nada. Ele foi se empoleirar no terreiro onde estão quem? Ora, as “galinhas”...

Otília nem sorriu e franzindo a testa, sapecou:

- Só falta você dizer que vai caçar o galo, hoje à noite, na Belíssima?


Veio a manhã de segunda feira, 9 de julho, e o cantar do Pavaroti indicava que ele não havia ido parar em panela alheia.

Fizemos uma busca frente ao local e o imperioso continuava sobre o muro.


Dona Nilza, uma das vizinhas, comentou:

- Vocês ouviram? Hoje acordei com um galo cantando. Me lembrei do sítio de papai.


- É o Pavaroti, respondia Otília a todos que notaram a presença do raro cantador.

Passado umas horas, decidi com meu afilhado:

- Vamos a caça, senão adeus galo.


Entramos no quintal da Belíssima graças ao faxineiro que lá trabalha. Explicamos a situação e encontramos o Pavaroti empoleirado no galho da enorme mangueira.


Ágil e armado de um cabo de vassoura, o menino Feliz escalou e ganhou altura para cutucar o penoso arredio, que bateu asas pro meio da estrada do Campo Limpo.


Entre os carros que passavam, armamos uma correria só. Fomos atrás dele, estrada acima e abaixo, sob risos daqueles que viam a insólita perseguição.


E, se juntaram a nós, o moço da auto-escola, a Otília, dona Nilza, gente que circulava, até a Celeste, que faz jogo do bicho, já tinha o palpite certeiro:

- Vai dar galo na cabeça!


Por fim, cansado, o Pavaroti se enfiou num pequeno jardim, repleto de coroas de cristo, em frente a casa da dona Arminda. Cercado, tentei pegar a presa, com cuidado, para não me ferir nos espinhos e uma possível bicada.


Ai! Que força demonstrou o galo. Num arremedo voltou a voar, atravessou a estrada e pousou na entrada da nossa floricultura. Ficamos todos em silêncio para não assustá-lo. Fervorosa, Otília pediu:

- São Salonguinho! Faz ele entrar que eu dou três pulinhos!


Não sei se foi o santo ou as plantas, como possível refúgio. Ele entrou e abaixamos a porta para não sermos surpreendidos.

Otília tratou de pegá-lo e rapidamente cortou suas asas, enquanto eu amarrava uma fita aos seus pés.


- Ufa!

O galo Pavaroti tornou-se atração naquele feriado. Alguns já o viam fervendo num caldo com batatas.


- Vamos matá-lo, agora? Como? Destroncar o pescoço? Mas, ele canta tão bonitinho!


Em face do ocorrido, rimos, e louvado sentimento ditou a sentença:


- De tanto lutar pela liberdade, o Pavaroti merece viver.


E assim, na redondeza, o amanhecer ganhou mais vida na voz do intrépido cantor!


- Cocorocó!

sábado, 1 de agosto de 2009

Mohamad ou Jean François

Começa o ano letivo. O pequeno Mohamad, fruto de intenso amor ideológico no médio oriente, está na sala de aula de uma escola no subúrbio de Paris.

Os alunos, um por vez, se apresentam. Mohamad se pronuncia e a professora em tom maternal, diz:

- A terra santa agora é outra. Para evitar aborrecimentos vamos chamá-lo de Jean-François. Repita comigo, Jean François, Jean François...!

E Mohamad, digo Jean François, soletrou as primeiras letras e regras do novo alfabeto. E cantou e brincou e comeu merenda e voltou pra casa a pé. O frio entardecer acompanhou seu retorno.

Leite com sucrilhos na mesa da cozinha, se aproxima a mãe:

- Meu pequeno Mohamad, que Alá proteja o cedo recomeço. Me conta, como foi seu dia?

- Un, deaux, trois, meu nome não é Mohamad, é Jean François...

- Que gracinha, Mohamad, aprendeu a contar ?

- Un, deaux, trois, meu nome não é Mohamad, é Jean François...

- Mohamad, seu nome é sagrado. Não pode ser mudado.

- Estamos na França, mamãe. Un, deaux, trois, meu nome não é Mohamad, é Jean François...

- Deixe de tolice. O nome é a herança de nosso país. Mohamad, você não pode ter vergonha de nossa pátria. Estamos aqui a trabalho, logo voltaremos ao convívio protetor de Alá...

- Um, deaux, trois, meu não é Mohamad, é Jean François...

- Pare com isso! - Gritou furiosa, a mãe, pegando o menino pela orelha.

O pai, a que tudo ouvia na sala contígua, o chama atenção:

- Mohamad, venha aqui! Fique de joelhos e peça perdão a sua mãe. Antes, diga qual o seu nome?

- Era Mohamad, virou Jean François, e agora já nem sei...

- Insolente! Umas boas palmadas vão te ensinar a ser quem você é...

No outro dia, na aula, a professora faz a chamada:

- Jean François, Jean François?

Mohamad permanece calado.

- Jean François, por que não responde?

- Me desculpe professora, mas só vou me tornar francês se a senhora mandar prender aqueles dois terroristas árabes que estão lá em casa...

Midraxe Hagadá - Marco Pezão


terça-feira, 14 de julho de 2009

Vencendo pela idade

Sob a coroa de espinhos sofre o mártir.

Milênios não suavizam o escarnecer da cruz.


No púlpito, eloqüente padre...


Finaliza a consagração domingueira.


- Perdoai os inimigos. Quantos aqui presentes oferecem tal virtude?


Dos bancos tomados sinalizam fieis. Aderência tímida.


Replicou o padre, apontando o símbolo cristão:


- Ele, cujo exemplo a imortalidade deve seguir,
golpeado
ofereceu a outra face e perdoou...
Perdoai os inimigos,
quem mais aqui presente oferece tal virtude?


Todos encorparam o rebanho...


Menos, delicada senhora sentada no banco à frente.


Dirigindo-se a ela, microfone em punho, o reverendo disse:


- Salve, dona Josefina! Pois, então, não perdoa os teus inimigos?


- Eu não tenho inimigos, padre - respondeu a gentil velhinha.


Tomando-a pelo braço, o vigário levou o diálogo ao altar.


- Qual é a tua idade, dona Josefina?


- 99 anos.


- 99 anos e sem o amargo da injúria! Aleluia!


Com vigor, os fiéis aplaudiram o feito.


- Nos conte, por favor, como é possível
manter-se alheia
aos inimigos tão longa vida?


A boa senhora pigarreou a voz e entusiasticamente falou:


- É que todos os filhos das putas, já faleceram...


Marco Pezão
(midraxe hagadá)