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terça-feira, 2 de abril de 2019

No I Love Laje: Mephisto, o injustiçado!

I LOVE LAJE NO FOMENTO À CULTURA DA PERIFERIA

Não duvidem! Há teatro de primeira linha na periferia! Aqui mesmo no Campo Limpo, a Lei de Fomento à Cultura da Periferia - 2018 possibilitou a circulação do Bando Trapos do Espaço Cultural CITA que, em parceria com o coletivo I LOVE LAJE, animou a noite de 15 de março de 2019, com uma performance sensacional da peça Mephisto, o injustiçado.

O embate entre as forças do Bem X Mal ronda a humanidade em diferentes culturas e a literatura como parte do imaginário teve em J. Wolfgang Goethe (1749- 1832), romancista alemão, a tragédia em versos Fausto, escrita em duas partes. Goethe tratou do conflito  entre Religião e Ciência através da ambiguidade interior do ser humano pelo pacto de um médico com Mefistófeles (Lúcifer) exaltando a angústia do século XIX e que, no Brasil, parece estar mais presente que nunca.  

Mephisto, filme de 1981, dirigido por Istvan Szabo, foi mais uma entre tantas versões desse mito que recriou o pacto com Lúcifer em um contexto moderno. A criação coletiva da Bando Trapos revisita o poder do protagonismo satânico em sua ambiguidade, na brilhante  atuação de Welton Silva, adequando seu discurso persuasivo ao nosso tempo. Ao aqui-e-agora, pleno de fake news, idiotia e tramoias. 
Méphis seduz espectadores e atrai para si um elenco periférico com  a promessa do sucesso. Inicia um teatro de percurso que da rua  entra para a livraria - o primeiro ambiente do Espaço I Love Laje, recriado como locus da metamorfose dos quatro saltimbancos em artistas. 

Conduzidos pela lábia de Méphis estimula a performance dos atores selecionados que se caracterizam aos poucos diante do público. Os espectadores vão sentindo os efeitos de personagens como Gero (Deco Morais); Flor (Cleia Varges); Mudo (Joka Andrade) e Mary Star(Ton Moura) criam em busca da fama. 

É a obstinação do discurso de Mephisto  que leva a todos ao primeiro território infernal  que retrata o prazer do alimento carnal  para nutrir o elenco em uma "santa ceia."  

Outro ambiente infernal vai destacando ao que vai sendo reduzido cada um dos abduzidos pela lógica mefistotélica. 

A fim de provar a injustiça que o condena a eternizar-se, Méphis rege a sutileza da arte na sinfonia dos cristais: momento sublime de entrega dos atores....  

Em busca do sagrado na arte e na dança dos corpos que seguem na  buscando de uns e outros e questionando a Deus.

Escravizados pelo desejo  obsessivo da presença do Messias a cena se revela potente. O que é real? 

O que é enigma? o que é teatro? Divino ou profano entre nós?

Tomados pela magia do espetáculo em sua  vetorização: da performance dos atores à iluminação, (Daniel Trevo) da sonoplastia ao  cenário e à produção (Nicoly Soares; Junior Matos e a Davi Damasceno e à direção que nos conquistou do começo ao fim. 

Se éramos pouco menos  de 20 no público... Quem atendeu ao apelo viveu o encantamento que a arte produz na alma. A periferia tem direito a ir da rotina que nos escraviza pra viver a liminaridade. Cada canto do I Love Laje foi criando vida à passagem desse vendaval deixado pelo CITA: Centro integrado de Artes. Parabéns ao Bando Trapos, à Dêssa Souza, antiga parceira a quem agradecemos. A periferia tem teatro a oferecer sim! Confiram!

Texto: Alai Diniz
Fotos e edição: Marco Pezão

DO CAMPO LIMPO AO SINTÉTICO

POESIA SEM MISÉRIA

A VÁRZEA É ARTE

A VÁRZEA É VIDA

PARTICIPE!

Esse projeto foi contemplado pela 1ª edição do Programa de Fomento à Cultura da Periferia da cidade de São Paulo

                             

quinta-feira, 28 de março de 2019

Lançamento do livro "Campo Limpo ao Sintético" reúne varzeanos da região

I LOVE LAJE NO FOMENTO À CULTURA DA PERIFERIA

Ao final de uma longa experiência  em seis Clubes da Comunidade (sobreviventes da expansão imobiliária) que representam, hoje, um dos poucos espaços de lazer na periferia do bairro, surge a obra Do Campo Limpo ao Sintético:Poesia sem miséria, fruto do projeto homônimo, compartilhado, no dia 23 de março, com muitos dos personagens que nela figuram como seus protagonistas. 

De boleiros históricos a poetas, de atrizes a capoeiristas, de novas integrantes do Clube de Leitura, acorreram ao I Love Laje aqueles que entendem como a "Poesia dá jogo e futebol dá poesia".É só a gente querer.

Porém, antes da euforia, cabe aqui nosso In memoriam a quem sonhou conosco no Grupo Semente (1973-75), contribuiu enviando suas lembranças, mas não pode ver essa obra parida. Caso de Adelson Roland, ponta direita no Martinica que honrou a camisa do Barranco. Sofria com a falta de ar nos anos 70 e nos tempos de hoje. Encantou-se no dia 11 de fevereiro de 2019. Ao Adelson e àqueles amigos que já se foram, nós, Marco Pezão e Alai Diniz, dedicamos este livro.

Narrar o que se vive entre o local e o global potencializa o diálogo e traz simultaneidade e comunicação. Sob um véu, o 'eu' das crônicas marcam:

 " O nóis pra nós
 é singular
o nóis pra nós
 o plural é pessoal "  

Meio século de futebol varzeano vai-se mesclando a uma trajetória de vida. O boleiro, filho do João Iadocicco, presidente do Alvi-Verde da Vila Sonia, relata existências pioneiras no Campo Limpo e dos pés seu chute criou o desejo de ouvir estrelas.

Aproveitando a imagem de Adilson CITELLI, Professor da ECA-USP em seu prefácio, será que a noite de lançamento conseguiu sintetizar como no livro uma "Polifonia Periférica"? 

A exposição no I Love Laje criava in loco, transformou-se numa galeria de arte e diferentes fotos históricas exemplificavam visualmente a própria estrutura da obra.

As genealogias do futebol de várzea. Ali, em imagens uma gama desses personagens e adentrando, em carne e osso, muitos que vieram pra prestigiar, para lembrar um papel, um ser querido, um jogo... 

Personagens de times históricos como André do histórico Canto do Rio, o time expulso do Parque do Povo. Ou  Boia, Julinho e Chicão do Alvi-Verde da Vila Sonia.

No capítulo 2 as histórias dos clubes da comunidade com imagens emolduradas em lances ou na presença de  Joe do CDC Cleuza Bueno; de Trinta do J. Rebouças ou de Porquinho do Titânico e o craque Morota. 

Ao lado do Videira, as veteranas do handebol no SAPY materializadas por Sonia e Tita, assim como na foto colorida do troféu de campeãs de handebol nos Jogos da cidade de 2011. Graças a essas guerreiras o CDC do Parque Ipê converteu-se em principal referência democrática na questão de gênero no bairro do Campo Limpo.

As fronteiras da cidade rompem barreiras tanto no futebol de várzea como na vida de Marco Pezão em sua passagem como repórter fotográfico em Taboão da Serra e na galeria de fotos, assim como no livro e ao vivo tivemos entre nós a nata do Jd. Roberto com Toninho, Cido Matias e Zitinho.

E as imagens do Capítulo 3? O percurso da arte na literatura da periferia é a vereda mais recente que se apresenta visível a duras custas e só ganha destaque  a partir do movimento dos saraus em 2001.

Entretanto, poucos foram os poetas que do pé à cabeça vieram pra  ouvir, ou ler a simbiose de vozes que propõe na periferia que o campo da arte se estenda à arte no  campo. 

No projeto, no livro e na galeria tentamos abrir janelas de par em par, mas a utopia por enquanto é uma semente que espalhamos...

Agora os leitores dirão no futuro o que ficou dessa ação. CONFIRAM!   

Sem esquecer daqueles que lutaram para tornar possível a Lei de Fomento à Cultura da Periferia, a dupla recordou em seus agradecimentos.

Os livros foram distribuídos gratuitamente a todos que prestigiaram o evento.  


Texto: Alai Diniz

Fotos: Bispoeta, Chiquinho, Trinta e Ryam

Edição: Marco Pezão

DO CAMPO LIMPO AO SINTÉTICO

POESIA SEM MISÉRIA

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Esse projeto foi contemplado pela 1ª edição do Programa de Fomento à Cultura da Periferia da cidade de São Paulo

                             

quarta-feira, 27 de março de 2019

A peça 'É dinheiro que você quer?' é uma trama instigante

I LOVE LAJE NO FOMENTO À CULTURA DA PERIFERIA

Mais um dos objetivos firmados no projeto Fomento à Cultura da Periferia, edição 2016, foi realizado com sucesso. O Espaço de Convivência Cultural I Love Laje, durante dois anos, criou uma série de atividades na área de teatro: um workshop ministrado pelo professor e diretor Fernando Faria, da UNILA;

...oficinas semanais e intervenções externas com cenas breves, buscando encontrar jovens da região de Campo Limpo interessados na montagem cênica do texto de autoria de Marco Pezão.

Somaram-se tentativas até que, no segundo semestre de 2018, chegou à Livraria Poesia FC, no I Love Laje, um grupo de nome Alquimia, tendo por propósito a cessão do espaço para desenvolverem seus ensaios. 

De acordo com nossa proposta de fomento, reservamos a data pretendida e fomos nos conhecendo melhor.

Sugerimos um dia para a leitura dramática da obra. Conversamos sobre possibilidades e, embora as dificuldades, o entusiasmo tomou conta dos envolvidos. Foram três meses de comprometimento para dar vida a quatro personagens: Moscou, Lídia, Leonor e Samuel. 

Transformando-se a cada ensaio, os atuantes, Carlos Monteiro, Daline Silvestre, Maria Raiane de Andrade e Geovanni Viana contaram com a direção de Alai Diniz. Na iluminação e som, o Alberto Gomes fez parte dessa viagem repleta de aprendizado. 

A conclusão do trabalho e sua apresentação aconteceu em 23 de fevereiro para uma plateia ávida por novidades.

O enredo se desenvolve em um apartamento no centro de São Paulo. Moscou retorna triunfante depois de quatro meses de total ausência. Traz consigo duas malas repletas de dinheiro, fruto de um assalto que lhe rendera 200 milhões de reais.

Porém, novos fatos revelaram-se durante sua ausência. O reencontro de Lídia e Leonor fez ressurgir uma paixão adormecida. 

Antes, sem grana para bancar seus projetos, Moscou arquitetara o mirabolante roubo com vistas a construir um teatro numa comunidade da periferia, onde pudesse desenvolver sua poesia e teatralidade. Um plano real e absurdo foi colocado em prática.

Deus criou o homem ou o homem criou o Deus que o criou? Onde nasce o pensamento? A traição da amada o põe em alerta. Dúvidas o assolam. 

Surpreendido, Moscou não contava com a investida do primo Samuel, advogado decadente, que o ironiza quanto aos objetivos destinados àquela fortuna. 

"Investir em poesia? Construir teatro na periferia? Somente uma mente lunática é capaz de conceber tamanho disparate. Ainda bem que apareci para que tal blasfêmia não se consumasse. Dinheiro deve servir o refinado prazer."

Seguro de si, Samuel pretende eliminar Moscou de forma sarcástica.

"Atenção, primo! Veja os requintes de sua derradeira e mórbida viagem. Leve consigo a imagem do meu gozo!" 

Prestes a disparar, num momento de distração, Moscou pega um revólver enrustido e mata o concorrente.

"O poeta tem a tarefa profética de levar aquilo que é mortal e isolado à vida infinita. O acaso ao legitimo. Luz e trevas, céu e inferno, Kafka."

Os diálogos que permeiam as ações refletem questionamentos quanto a ordem política estabelecida.

 "Sentido o gosto do sangue, não há como cessar o galope da morte. Venham meninas, refaço o misancene e deponho o berro em favor da paz. Um brinde..."

Entre amar e matar as amantes, Moscou preferiu a primeira opção. Porém, Leonor, não disposta a ceder Lídia, decide mudar o rumo da história. Toma posse da arma em cima da mesa...

"Mulher é comida, mas come também", diz ao apertar o gatilho. Decepcionando-se ante o tiro que pipocou. 

 "Assinar o final do enredo? Não ia dar esse mole pra você, né Leonor. A arma está travada. Feito folhas em branco, nas páginas da vida tudo cabe. Se alinhem mulheres, eu não as quero curvadas. O egoismo, Lídia, o egoismo, Leonor, é o grande câncer da humanidade..."

 "A violência está enraizada nos confins dos homens, à flor da pele pra qualquer emergência. Os donos do planeta, os donos do planeta, em que escritórios se escondem?...

Só a poesia salva... só a poesia salva... É dinheiro que você quer..."

Após a apresentação, o bate papo. Importante constatar o interesse das pessoas, mostrando o quanto é viável a produção teatral na periferia.  

A inauguração do espaço cênico do I Love Laje abre espaço para novas realizações, visando sempre incentivar a formação de protagonistas e público.

Giovane, Carlos, Maria, Daline e Alai tornando possível uma nova história, ainda a ser contada por quem assim o desejar.


Comentários:

Ator Carlos Monteiro (Moscou)

O que eu posso relatar desta experiência?

Foi algo saboroso, orgástico. A peça: É DINHEIRO QUE VOCÊ QUER? transcendeu minhas expectativas. Através desta dramaturgia, eu pude conhecer Pezão (articulador histórico da nossa cultura territorial) e Alai. Ambos seres poderosos com suas armas poéticas.
Conhecemos o Espaço I Love Laje. Durante três meses estivemos na espacialidade, transformando o ambiente e nos transformando. No início o espetáculo de longe não nascia... Com o tempo, conseguimos, através de muito trabalho teatral, criar uma encenação. A entrega foi simbiótica. Quando eu saia do espaço após os ensaios, ia para casa preenchido. Quero expressar que foram momentos marcantes para minha carreira teatral. Hoje posso reconhecer o I love laje como um espaço cultural da região do Campo Limpo.  

Atriz Daline Silvestre (Lídia)

Foram momentos que eu gostei bastante. Pude conhecer pessoas cultas e importantes para nossa região (Campo Limpo). A peça e os ensaios me deram chance de crescer artisticamente, modificaram minha essência como atriz. Tivemos uma grande oportunidade de conhecer o texto e seu autor, e os ensaios eram momentos alegres, tensos e de aprendizado. Um processo importante para que no final, na apresentação, chegássemos prontos. 
Fiquei feliz pelo convite de participar deste projeto. Através do mesmo, conheci o Espaço de Convivência Cultural I Love Laje, e seres tão preocupados com a nossa verdade e que acreditam na arte como uma ferramenta de transformação.

Atriz Maria Raiane de Andrade (Leonor)

Pensando na interpretação de Leonor, em alguns momentos, foi bem mais fácil. Pois ela tem uma personalidade forte e a todo momento tenta mostrar que, independente das dificuldades, irá fazer de tudo pra seguir em frente no seu objetivo. Na peça, sua maior riqueza é Lídia, que a deixa cega de amor e desejo. 
Desenvolver a personagem foi uma construção especial. Tendo o roteiro, decorar as palavras e colocadas na ação, em alguns momentos ficava a pensar se conseguiria transmitir toda essa intensidade, essa emoção, que o texto proporcionava. Então eu ficava naquela expectativa de fazer bem certinho. De gravar as marcações. Aí, às vezes, ficava naquela de lembrar algo, mas esquecer de fazer outro. Em alguns momentos era como um quebra cabeça, mas quando deixava o nervosismo de lado, aí fluía de um jeito bem mais satisfatório. Natural. E até eu me sentia mais confiante. Uma das qualidades que vou me lembrar sempre de Leonor é a sua coragem. Mesmo diante de uma arma apontada para ela, não recuou em seu propósito. Uma projeção incrível. Valeu a pena participar e superar minhas próprias expectativas.

Alai Diniz (Direção)

Desafios fazem parte da vida. Dirigir uma obra teatral pra quem vive amiúde esta experiência constitui um prazer e um risco. Não que eu fizesse disto profissão, mas sempre rodeei o teatro com paixão. Ao longo de minha história pessoal o teatro irrompeu em tempo de agruras, mas o certo é que fui ocupando essa arte de fazer por gosto e não por carreira. Além disso, só esporadicamente me circunscrevi a um espaço definido formalmente como teatral...com luzes e sombra, sonoplastia e criação com público pagante. Portanto, minhas raízes sempre foram aéreas e livres no campo da arte dramática.

De fato, abracei a performance no gesto de quem ama o que não está definido entre quatro paredes, mas como ato de intervenção no cotidiano de um bairro periférico em tempo amargo na juventude; em escolas e, mais tarde, criando a carreira de ARTES CÊNICAS na Universidade Federal de Santa Catarina, em 2008. 

Por isso, aceitar o desafio de dirigir a obra É dinheiro que você quer de Marco Pezão no contexto do projeto “Do Campo Limpo ao Sintético: Poesia Sem Miséria” marca pra mim uma ousadia de quem ainda sonha em seguir aprendendo.

O Grupo ALQUIMIA surgiu no Espaço de Convivência Cultural à cata de um local para uma oficina de Literatura e teatro. Não tardou muito a que os talentos surgissem e a proposta de realizar uma das finalidades dramáticas do projeto com eles. Carlos Monteiro; Daline Silvestre; Raiane Andrade , Giovanni Viana  e no suporte técnico de iluminação e sonoplastia e projeção, Alberto Gomes.

Foram três meses de ensaio e interação entre a Alquimia de um grupo que já se conhecia e se entrosava com um sujeito feminino sexisagenário na árdua tarefa de alinhavar desejos com energia, criatividade coletiva e disciplina. O tempo exíguo para incorporar a palavra que pulsa na ação, na sexualidade e na angústia utópica envolvia relações de gênero; afeto e violência, indo do micro ao macrocosmo político, dialogando com nosso tempo no espaço da periferia, dentro e fora da peça.   

Pra que enfatizar algumas dificuldades inerentes ao desafio de qualquer proposta coletiva, em  situação  inter geracional e em busca de formação de público para esta arte milenar, se, após um trimestre  de ensaios, o espetáculo aconteceu?

No dia 23 de fevereiro de 2019, em noite de chuva torrencial, acudiram ao Espaço de Convivência Cultural I love Laje um público de 25 a 30 pessoas, em meio a espectadores de Paraisópolis, Taboão e Embu. Quem ali esteve assistiu a uma entrega por parte dos atores e atrizes; a uma concentração e ritmo na operação das luzes; som e projeção; a uma recepção que reagiu aos atos, manifestando-se atenta e á realidade, sem quarta parede e à ficção. Deu-se a partilha do sensível no aplauso que levantou a plateia, seguindo-se a um diálogo com o elenco, o dramaturgo e a direção. Missão cumprida? Ainda não.

Resta o desafio de continuar a trazer o público para conhecer a dramaturgia local, autores de lastro como Marco Pezão e  a reconhecer no teatro uma ação estética que aprofunda o ser político que há em meio ao caos e desvarios desse nosso tempo.

Depoimento de ALBERTO GOMES, sonoplasta, iluminador e contrarregra.

Como definir “essas experiências” e digo no plural, pois foram de fatos várias delas, começando pelo texto, cheio de referência a grandes nomes, plural em cultura, que se divide em camadas, onde quanto mais profundo for seu conhecimento das artes literárias e poéticas, mais profundo você mergulha na história e ainda assim, mesmo aquele “leigo” que tem conhecimento superficial, consegue compreender completamente a mensagem e se tornar alguém capaz de questionar conceitos sociais, políticos e por que não filosóficos da vida?
Um dos primeiros desafios como Técnico de som e iluminação “fora os atributos extras”, ajudar, junto com a equipe, a ver os objetos realmente necessários dentro do texto, assim como sons obrigatórios e passagens chaves da peça, entre uma cena e outra, foi determinante para decidirmos o tipo de palco que seria usado, levando em conta a plateia, o tamanho do palco e iluminação que viria a seguir. De forma oportuna, Fernando Faria, um amigo diretor da Alai que estava de passagem apareceu para assistir a um dos ensaios e com várias dicas preencheu as lacunas e dúvidas que ainda tínhamos.
Agora sim! Sem nenhum impedimento ou obstáculo toda a peça já estava decorada e estávamos fazendo as marcações, o desafio final e, na minha opinião, um dos mais importantes: a música para cada uma das cenas.  Testamos várias e várias e várias e várias, tanto que até mesmo dias antes da estreia ainda estavam pensando sobre como uma outra opção de música poderia se encaixar melhor no sentimento que queríamos passar na cena e tudo saiu de forma grandemente bem-sucedida depois de algumas mixagens e trabalho em equipe.
Talvez eu não tenha dito de maneira tão explicita, mas o ponto alto do projeto e o que fez com que ele desse certo foi a confiança no trabalho em equipe... Mesmo com os desentendimentos artísticos (se posso dizer assim), conseguíamos unificar as visões, criando o resultado que foi apresentado. Tudo que tenho é gratidão pela confiança do Pezão em escolher nosso grupo como ferramenta para trazer à vida a obra de uma vida.  Um texto que ele trabalhou durante anos, com carinho e determinação, sabendo que um dia ele seria exibido para uma plateia.


Texto inicial, fotos e edição: Marco Pezão


DO CAMPO LIMPO AO SINTÉTICO

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