terça-feira, 6 de novembro de 2018

Mario San e a Rainha do Lar

I LOVE LAJE NO FOMENTO À CULTURA DA PERIFERIA

No começo do século XX, o Japão derramava vida pra tudo quanto era lado. E quando o imposto de propriedade já não podia ser pago em produtos, então foi um deus nos acuda. Era tanta miséria nas cidades abarrotadas de gente que uma das saídas foi a emigração. 

No cartaz acima uma Companhia distribuía aos desafortunados a doce ilusão de riqueza, oferecendo contratos para trabalhadores  nos engenhos de açúcar da costa do Peru ou em plantação de café no Brasil, principalmente em São Paulo.

Milhares de camponeses sem terra no Japão aqui vieram para suprir a carência de mão de obra desse outro lado do globo. Chegaram em 1908 pra lavoura do café, mas o primeiro país a contratar asiáticos, na América do Sul, foi o Peru em 1899.

Mas seria mesmo carência de mão de obra? Ao fim da escravidão, os fazendeiros optaram por contratar imigrantes, em lugar de pagar um salário digno aos escravos libertos. 

Esse foi o caso de Saiti Iguti, pai de Torao, o Mario San, que conta:

 - “Lá no  Japão, achavam que era só vir pro Brasil e trabalhar duro durante 5 anos pra voltar rico pra lá.” 

Foi numa dessas que Saiti assinou um contrato de trabalho de três anos. Rumou por mar e terra a uma fazenda de café em Ribeirão Preto (SP). 

Tome Iguti, sua mulher, com um embrião no ventre e mais três filhos, enfrentaram uma viagem de 40 dias, de navio, até o porto de Santos. 

O sonho de Iguti era enriquecer logo e voltar rico pro Japão. Por isso, em sua casa, fazia questão de usar a língua japonesa, enquanto a família crescia em bocas pra comer.

Ao todo eram oito filhos, cinco nascidos no Japão - dois homens e três mulheres - e três no Brasil - homens - que, de dia, eram braços pra lavoura e de noite, à luz de lamparina, aprimoravam a língua ancestral na escrita e na leitura. 

Quando o navio aportou em Santos, São Paulo estava em guerra (1932). Rindo, Torao conta que até houve trégua na Revolução Constitucionalista pra que os imigrantes viajassem de trem, passando ilesos por São Paulo. 

Não foram os tiros de canhão ouvidos ao longe, o que nunca esqueceram da chegada ao Brasil, mas sim uma primeira iguaria servida a eles no trem rumo a Ribeirão Preto. 

Iam jogando tudo pela janela, tal era o fedor daquela comida que eles nunca tinham provado: a mortadela.

Com o tempo o sonho daquela família nipônica foi-se dissipando em virtude de um contrato que os tornava 'escravos'. Conforme Torao, os Iguti, ao fim do contrato, saíram “lisos” da fazenda. 

Virou da água pro vinho, a vida da família, quando arrendaram terras para o plantio de algodão, possibilitando ao Saiti comprar a sonhada propriedade. 

Aí o pai de Torao, resolveu embarcar em outro sonho, o de plantar "ouro verde" (café) no Paraná. Torao já tinha 12 anos e ajudava a família no campo.

A primeira florada coincidiu com uma tremenda geada, em 1953. Plantaram mais uma vez e novamente, em 1955, geou e perderam a safra.

Então Torao assumiu que estava na hora de decidir sua vida. Iria à São Paulo, capital pra estudar. Tinha feito só o ensino fundamental (de primeira a quarta), mas seu plano secreto era ser médico. 

Em casa de primos, Torao trabalhava pra comer, mas ia aprendendo a lidar com o couro e foi pouco a pouco sendo demovido do estudo pelo primo. 

Virou mestre artesão e montou seu próprio atelier. Ia muito bem, tanto que foi buscar no Paraná, Eunice, a namorada, e casados foram morar no Caxingui.

Juntando uma grana, Torao deu entrada em um prédio recém terminado na Estrada do Campo Limpo e aderiu ao comércio. Tinha de tudo no Bar Empório Rainha do Lar, de Torao e Eunice.

“ – Dona Eunice fazia espetinho, coxinha como ninguém! E aquele empanado japonês com verduras e camarão? 

Como era mesmo o nome? Ah! Tempurá. Que delícia”, recorda Marco Pezão durante a conversa. Às quatro da manhã Eunice despertava e dá-lhe fazer quitutes pra vender na mercearia. 

Até que nos anos 90, Eunice teve um câncer de mama, conta Torao, mas com uma cirurgia, Eunice se recupera e a família lhe oferece  uma viagem ao Japão. Torao fica pra cuidar do empório.

Por trás daquela senhora tão prendada, havia uma artista, recorda Torao. Eunice, com seu canto, participa de um karaokê na Liberdade.

Vence vários concursos e incentiva Torao a aderir a essa convivência cultural, em que nipo-brasileiros se reúnem para entoar melodias em língua dos seus antepassados.

Em maio de 2018, aos 78 anos de idade, encanta-se Eunice Iguti, e segundo a tradição oriental, Torao erigiu, em sua homenagem, um altar com três dos troféus conquistados, além de fotos.

A música alivia a solidão, Torao equipa um cômodo da casa com uma aparelhagem apropriada para gravar, ensaiar e enriquecer seu cotidiano. Adquiriu o hábito de escolher alguma nova melodia japonesa pra apresentar nos eventos da Associação. 

Fugindo da mesmice, na arte do canto, octogenário, pleno de suas faculdades mentais, cria um ambiente de alegria, afeto e cuidado de si, como ser independente. 

Tem uma longa história com seu trabalho cotidiano, mas é este prazer que o mantém firme e feliz consigo mesmo. 

Lá na Associação, a Liberdade é a de Torao Iguti.  O artista que a comunidade do Campo Limpo, provavelmente, ainda não conhece. 

Enriquece a comunidade do Campo Limpo com sua existência criativa. Torao Iguti encontra na arte de cantar o calor da presença de quem, como ele, detém um saber: a língua japonesa. 

Torao, Mario San, nos ensina a entender que não há limite de idade enquanto houver sonho. Assim é que a vida acontece. 

Após maio de 2018, com a partida da companheira, ele canta, quase como se fizesse com a voz uma elegia à Eunice, assim traduzida para nós:

Triste história antiga
Você conta sorrindo
Mas deve ter sofrido
Se eu sirvo pra consolar
Deixe-me tentar


Reportagem: Marco Pezão e Alai Diniz


DO CAMPO LIMPO AO SINTÉTICO

POESIA SEM MISÉRIA

A VÁRZEA É ARTE

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Esse projeto foi contemplado pela 1ª edição do Programa de Fomento à Cultura da Periferia da cidade de São Paulo