terça-feira, 14 de julho de 2009

Vencendo pela idade

Sob a coroa de espinhos sofre o mártir.

Milênios não suavizam o escarnecer da cruz.


No púlpito, eloqüente padre...


Finaliza a consagração domingueira.


- Perdoai os inimigos. Quantos aqui presentes oferecem tal virtude?


Dos bancos tomados sinalizam fieis. Aderência tímida.


Replicou o padre, apontando o símbolo cristão:


- Ele, cujo exemplo a imortalidade deve seguir,
golpeado
ofereceu a outra face e perdoou...
Perdoai os inimigos,
quem mais aqui presente oferece tal virtude?


Todos encorparam o rebanho...


Menos, delicada senhora sentada no banco à frente.


Dirigindo-se a ela, microfone em punho, o reverendo disse:


- Salve, dona Josefina! Pois, então, não perdoa os teus inimigos?


- Eu não tenho inimigos, padre - respondeu a gentil velhinha.


Tomando-a pelo braço, o vigário levou o diálogo ao altar.


- Qual é a tua idade, dona Josefina?


- 99 anos.


- 99 anos e sem o amargo da injúria! Aleluia!


Com vigor, os fiéis aplaudiram o feito.


- Nos conte, por favor, como é possível
manter-se alheia
aos inimigos tão longa vida?


A boa senhora pigarreou a voz e entusiasticamente falou:


- É que todos os filhos das putas, já faleceram...


Marco Pezão
(midraxe hagadá)

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