quarta-feira, 4 de novembro de 2009

No mesmo molho, amizade e macarrão

É costume, no bar do Neto, alguém apresentar algum tipo de guloseima pra consumo nosso, diários freqüentadores.

Odair, corinthiano, no domingo, 01/11, trouxe requintada salada, o salpicão, além do peito de frango regularmente cortado e frito.

Ontem mesmo, segunda feira, 02/11, feriado, o palmeirense Tadeu nos fez saborear a panelada de joelho de porco acompanhado de repolho refogado que o santista Xiko xamou de xicrutis.

Os adversários de plantão logo associaram o fato, melhor o prato.

Mesmo diante do heróico empate de 2 a 2 contra o Corinthians, em Prudente, disseram:

- Queimada as gorduras, o Porcão está morto e servido...

Servido de frágil liderança, apesar da fé, os palestrinos temem a perda do Brasileirão. Divergem e concordam, comem e bebem...

Agitamos o ambiente, às vezes ardentemente, cada qual com sua razão, o que nos aflige.

Seja a política, a segurança, amores diversos, o futebol, principalmente...

Como somente dependemos da fragilidade de nossos votos, obrigatório quadriênio, os políticos acabam geralmente escorraçados...

Embora o dia a dia é quem dite a própria convicção.

No amor repercutimos vozes interiores

Na beira do balcão falamos o que não dizemos normalmente...

À insegurança oramos amém, que Deus nos proteja. Não há gravata e nem farda que o substitua.

Somos e vamos por (in) diferentes caminhos...

Caminhos que se cruzam neste ocasional ponto de encontro.

Na sexta feira, 31/10, como previamente marcado, me apresentei para fazer a massa de macarrão.

Levei a máquina herdada de minha mãe que serve para esticar e cortar em fios a massa.

A origem do macarrão é discutível. De assírios e babilônios, ainda 2500 anos antes de Cristo.

Relatos citam também Marco Pólo que em retorno de sua famosa viagem à China, no final do século XIII, trouxe a hoje famosa iguaria.

Em outra versão consta que os árabes ao conquistarem a Sicília, no século IX, foram responsáveis pela introdução da itrjia, que era uma massa seca.

De vero mesmo, a palavra macarronis surgiu do dialeto siciliano derivada do verbo maccaris, que significa achatar.

Da forma como o ocidente conhece, os italianos incrementaram o molho de tomates e criaram mais de 500 variedades de tipos e formatos de macarrão.

Distante do tempo histórico, o ato: Marco Pezão e o Henrique estão na cozinha, em Campo Limpo, sudoeste da capital paulista.

Dois quilos de farinha de trigo e ovos. Mãos à massa. E não é que a coisa liga.

Amassa e estica e os filés enfarinhados tomaram conta da mesa e pia.

Talharini é a pedida e depois de várias horas de trabalho, a cama de casal aconchegou toda a produção.

O Kim chegou e perfumou o ambiente tendo a tiracolo duas belas garotas. Avisado, o amigo, quanto a indisponibilidade do quarto, a fanfarronice tomou assento à sala.

O molho por conta do Henrique absorveu 6 quilos de tomates fervidos e peneirados transformado em apurado puro purê...

Terminada a primeira etapa. Cachaças, cervejas e rabos de saia, à parte. Veio o sábado, 01/11, e a suculenta macarronada nasceu.

Bolonhesa e calabresa deram o sabor, salpicado com queijo parmesão.

E à tarde, por volta das 15 horas, estávamos em frente ao bar do Neto, saboreando a missão cumprida.

Travessas devidamente consumidas, todos comidos, e as fotos relatam a façanha aos amigos que não puderam comparecer...

Alemão, palestrino, pegou o fio e foi fundo...

Faltaram muitos amigos que viajaram por conta do fim de semana prolongado. Mas os que ficaram deram conta do recado...

O Lima, servido na cumbuquinha, enrola...

Exibe rápidas e sequências garfadas...

Já era! Lá vai o Lima pro repeteco...

Luiz e Alexandre se preparam para entrar em campo maxilar...

Odair explana e dá ênfase à culinária...

Saboreando as próprias palavras...

Xiko, sob o olhar do Henrique, mira o garfo...

Marinalva tomou conta do vapor...

A cozinha onde mostramos que somos capazes...

Henrique descansa antes de do 2º tempo, tendo na assistência o Alexandre...

A euforia do Xiko...

Cantando feito o Pavarotti...

Henrique servindo a segunda remessa, o molho de calabresa...

Uma pausa ao Odair...

Em seguida assediado pelo Alemão beijoqueiro...

A netinha da Marinalva...

A neta, Marinalva e Marcio...

Odair e Marco Pezão...

Clicados pelo Alemão...

E o Alemão gostou da brincadeira e mandou ver nas fotos...

Xiko e Marco Pezão...

Xiko assumindo novo prato...

Marcio, de passagem...

A comilança não teve trégua...

Em diferentes lugares...

A cena se repetiu...

Prato cheio à vontade, né Alemão...

O sãopaulino e o Alemão posam pra despedida...

Marcio, Xiko, Alemão e Alexandre. Que a curtição se repita...

Xiko e Marcio, foi bom demais...

domingo, 1 de novembro de 2009

Momentos

O gol foi uma perfeição

Dentro da área grande

A bola quicou no chão e subiu

O avante de cara pro gol

A bola parece que demorou demais pra descer

Deu tempo pro zagueiro chegar com a bota erguida

E o goleiro avançar pra travar o chute

Que eles pensaram que ia sair

O avante vivo tocou de cabeça

E o goleiro se estrebuchou de costas

Já era zagueiro, já era arqueiro

A menina tá na rede

E o centro avante rindo seu riso banguelo

Correu pra comemorar

2 a 1 no placar

Deu Jardim Roberto

Contra o time do Carlinhos

O XI Garotos

No campo do cultural japonês, no Clementino

Eles queriam ganhar de nóis

Ficou no querer

A lua tava trincando num sol

De trinta e lá vai grau

O Osvaldinho, treineiro, sãozinho,

Sem nenhuma cachaça na testa, declarou:

- Não sei como ôceis consegue jogar com esse calor todo...

Tá louco, esse Jardim Roberto é demais!


Pé (1983)

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Onde está Deus?

- Opa, ainda bem. A avenida Francisco Morato está livre e podemos acelerar um pouco mais. Conversando com a 125 noto o Valdomiro, serralheiro, sujeito alegre. Com ele, por perto, há sempre uma boa história pra se ouvir...

- Ainda, o Jardim Santa Clara conserva tranqüilidade de cidade do interior.
Bairro pequeno, afastado do centro, têm no máximo três mil habitantes.

Na praça, em frente à capela, os jovens se encontram. Ouvem músicas, cantam, dançam, e não raro os amores florescem entre os casais.


Adiante, a sorveteria do Gaspar. O concorrido cinema. O teatro onde companhias se instalam em temporadas. Ocupando a esquina principal, a antiga padaria do seo Manoel produz o melhor pão de milho de toda região.


Sim, Santa Clara se mantém quase alheia às transformações da vida moderna. Pena que a televisão vá modificando o sotaque ali característico.


Mesmo assim, mantendo a tradição, as famílias conservam hospitalidade e se reúnem para o almoço domingueiro ou festejo de dia santo.


O fato é que próximo da praça, numa rua transversal, mora dona Tereza. Mãe de dois filhos, cujo marido meteu-se em negócio de caixeiro viajante e sumiu a vista de todos.


Ela, senhora de trinta anos, encara as dificuldades com talento no preparo de doces e salgados.

Simpática e cuidadosa consegue dar sustento a casa, e aos meninos Toninho e Agenor, de 11 e 9 anos.


Verdadeiros pentelhos. Pois não há duas pequenas almas mais endiabradas. Arte praticada por adultos é obra. Se por crianças é travessura. No lugarejo, a dupla é amplamente reconhecida.


Choque elétrico em gatos. Rato na gaveta da mesa da professora. Sapos nas mochilas das colegas de classe. Trocas de material escolar. Sumiço de lanches...


Nó em roupas penduradas nos varais. Fechaduras de portas tampadas com chicletes. As brincadeiras valem reprimendas, mas eles não se emendam.


Pneus de carros esvaziados. Assentos do cinema lambuzados de graxa. Nem a batina do sacristão é poupada. Um dia apareceu cheia de açúcar e repleta de formigas.


Até o vinho sagrado fora substituído por refresco.


Tudo que é peraltice, Toninho e Agenor praticam.


A ausência do pai é a explicação dos temperamentos arredios. Em consideração a mãe, a vizinhança é paciente.


São crianças, explicam. Amanhã ou depois tomam jeito. É certo, porém, que umas boas palmadas não iam mal!


Dona Tereza é incapaz de levantar a mão aos filhos e sofre. Pois qualquer caso inusitado que aconteça no vilarejo, de imediato os culpados são eles.


Mas eis que um padre austero assume a igreja local. Traz fama de exigente quanto à disciplina das ovelhas rebeldes do rebanho de Cristo.


Por conselho das vizinhas, dona Tereza resolve enviar Toninho e Agenor a uma sessão. Padre Afonso é alto e forte. Tem olhos miúdos, a barba cerrada e a cara quadrada.


Não ri por nada. E seu oficio é regido de forma incontestável.
Sabedor das traquinagens dos guris, o severo vigário segura uma vara de marmelo defronte ao altar.

Ambos chegam temerosos, e notam falta das imagens nas paredes. Não sabem que estão sendo restauradas.


De feitio peculiar, a pergunta inicia o sermão. Padre Afonso encorpa a voz e brada:


- Onde está Deus?

A resposta: Deus está em nossos corações não veio.
Os meninos ficam parados e não dizem nada.

Com os braços estendidos acima da cabeça, o clérigo vibra intencionalmente a vara no ar:


- Onde está Deus? - Repetiu em tom rigoroso.


Um duplo susto. Os meninos não esperam por mais. Saem correndo da igreja e só param em casa quando dentro do guarda-roupa.


Dona Tereza, que já se preocupava com a demora dos filhos, os encontrou trêmulos:


- O que aconteceu?


- Mãe, agora a gente tá encrencado! Deus sumiu, e o padre acha que a culpa é nossa!


- Muuugi boi, muugi...


- Cócórócócó...


- Mééééé...


Marco Pezão (midraxe hagadá)

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Dilema

- Ultrapassa, dona! Está com medo de quê? Dá pra passar uma jamanta! Dei seta à esquerda e a senhora não viu! Vai, vai com Deus...

Agora não bichão! Agora sou eu. Pode buzinar à vontade. A preferencial é minha...


No retrovisor dou uma geral nos passageiros e a lotação está quase completa. Reconhecendo semblantes, percebo os que fazem hoje o percurso.

Quantas histórias permeiam sentimentos confusos abrigados no íntimo? Um contêiner em movimento carregando sonhos e dramas.


O principal desafio no amor é conviver com as limitações de cada um, não é não casal vinte? Sentados à esquerda, ambos mantém os olhos voltados pra janela, pintando nova paisagem além dela.


Em ser resultado de circunstâncias. Circunstâncias que operam, imperam, e cedo ou tarde pedem respostas. Desta luta não há como correr. Os rounds são aflitos. O eu deve sair vencedor ou o corpo tomba vencido.

Alexsandro Papel tem a cabeça recostada e os olhos fechados. Não dorme. Trilha o fio da amargura. Hesita o passo e sabe que é preciso prosseguir pra resolver de vez o estranho dilema.


- Que ventre me pariu? Que ventre me pariu? Que ventre me pariu? Não tenho resposta. Quem me pariu? Só uma coisa é certa. Foi uma boceta que me pariu. Cagado é que não fui. Impossível localizá-la?

Mãe! Quem, diabos, é minha mãe?


- Aproveito o farol vermelho pra dizer que a pergunta sem a devida resposta é o martírio vivido por Alexsandro.

Menino bom, bem criado, apesar da ocorrência inédita em seu desenvolvimento desde a inseminação e gestação.


- Bebê de proveta! Bebê de proveta! Bebê de proveta! Inseminado! Eu não fui trepado. Eu vinguei punhetado!

Egoístas. Egoístas é o que eles são. Nunca mais quero vê-los. Não me dão o direito de conhecer o verdadeiro pai, quanto mais a pobre moça transformada em barriga de aluguel.

- Dona, a senhora desce essa rua e vira à direita. A Assistência Social é logo em frente. Por nada, tchau!

No caso do Alexsandro deu pra sentir o drama? Os pais só revelaram a verdade sobre sua origem quando o jovem ingressou na faculdade.

Até então, ele acreditava que fora adotado por consequência do falecimento materno.

E não esperavam uma reação tão intempestiva. Em poucos meses o estresse falou mais alto e Alexsandro largou tudo.

Estudo, roupas, sapatos, livros. Saiu com a vestimenta do corpo e algum dinheiro usado pra alugar o cômodo e cozinha pra morar.

Mas, mesmo distante do motivo que o transtornara, nada adiantou. O problema está nele.


- Tiveram a pachorra de se masturbarem. Depois pegaram as porras e as misturaram no mesmo tubo de ensaio.

Efetuada a análise e o processo seletivo, qual espermatozóide ganhou a condição de ir fecundar o óvulo da minha mãe desconhecida?

Quem é meu pai?


O meu próprio nome é fruto dos dois. Alex e Sandro. Do nome deles nasceu o meu: Alexsandro Carvalho Amorim. Carvalho de um. Amorim do outro.

Pedi que fizessem o exame DNA. Eu quero saber em definitivo, quem é meu pai? Já que não posso conhecer minha mãe!

E qual foi a resposta? Disseram, você é privilegiado. Têm dois pais que são duas mães só pra te paparicar. Tudo, com eles, é brincadeira:


– Olha, Alex, os olhos do Sandrinho. O jeito de olhar é seu.


- Ah, Sandro! Todo mundo diz que a testa dele é sua. Sem tirar nem pôr.


- Ô 125! Faz esse povo andar! Vamos liberar a passagem, gente!

É complexo o caso do amigo. Os pais, homossexuais, decidiram ter, criar, e amar um filho só deles. Conceituados em suas carreiras, um é médico e o outro advogado, utilizaram meios modernos para realizá-lo.


- Se ao menos tivessem guardado o endereço da moça minha mãe. Não importa ser tecnologicamente projetado. Permitissem visitá-la!

Pude sentir o bico do seio dela amamentando minha boca, durante quanto tempo? Três meses e então secou o leite? Não posso acreditar que depois, secado o leite, seco estava o amor de minha mãe?

Nunca mais, em nenhum momento, houve por bem pensar em mim? Não creio que exista mãe assim. Eles, sim, são culpados.

O dinheiro tudo compra. O suborno tange o silêncio. Alugaram a barriga dela como se compra um guarda roupas? Minha doce mãezinha pudera te conhecer...

- Ô motorista! Não cabe mais gente aqui não. Vai parar em todo ponto?


- Falta de consideração!


- No fundo do ônibus tem lugar vazio! Tá todo mundo na catraca. Ô 125, parece que você tem mel?


- Tem um homem encalacrado aqui no meio! Força, meu senhor, é preciso desobstruir a passagem!

Acho que não vai dar, 53! O homem é muito gordo. Não passa na catraca. Vai ter que voltar e descer pela porta dianteira.


- Meu Deus do céu, agora enfezou. Nem pro baixo e nem pra riba.


- Se der atenção aos ocorridos, chora e ri. Dou meu ouvido, mas entra de um lado e sai do outro. Nem sempre, é certo. Têm histórias comoventes, doentes, excitantes, que me fazem pensar.

No caso de Alexsandro, a ferida existencial segue exposta.


- O dinheiro me proporcionou as melhores roupas. Colégios particulares. Casa na praia. Carros. Conforto.

E não posso deixar de reconhecer o carinho e cuidados com meu bem estar. Sim. Eu gostava daquela mutação diária.

O Sandro tornava-se Sandra. O Alex travestido em ternura aduladora. Confesso, em soberbo amor me deleitei. Os via como duas mães, só minhas. Ora eram dois pais somente meus.

Sentia-me pleno, seguro sob as asas daquela estranha paixão. Amavam-se sinceramente, abertamente, e não temiam observações maldosas sobre o amor que praticavam.


A casa, costumeiramente, recebia tantos amigos. Amigas zelosas, que, entre prosas e risos, me excitaram a descoberta do sexo.

Havia no quintal muitas plantas, os cachorros, e a paz teceu clima durante minha infância e adolescência.


Mas não posso deixar de observar e isso magoa. Não passo de uma experiência. O desenvolvimento de um bebê de proveta. Articulado e premeditado friamente.

Um clone satisfazendo desejos deles, banais!

A revolta fez liga em meu sangue, creio, oriunda do gen materno. Avancei adiante e olhando pra trás vi a redoma. Compreendi a falsa felicidade, na qual estive mergulhado quanto tempo.

Senti-me marionete, uma marionete, marionete, e entendi ser preciso cortar os fios atados àquelas mãos hábeis, manipuladoras, capazes de persuadir as regras de Deus.

Não! Eu serei o que quero ser! Se uma folha em branco significa ser alguma coisa, então sou! Do contrário, eu escrevo minha vida nela. Eu! Tomaram ciência? Eu! Enfim, o bebê saiu da proveta!

Sofram! Eu sofro também. Se ao menos pudesse saber quem é minha mãe? Qual ventre me pariu?


- O trânsito está infernal. Essa orquestra de buzinas não resolve, irrita, e o melhor a fazer é não esquentar a cabeça.

Alexsandro continua preso em sua concha. Repassa e examina anseios contraditórios. Chegará ao ponto final ou desce em meio ao fluxo e faz da multidão o habitual esconderijo?


- Quer chegar pra frente, por favor. Tem espaço ali e o senhor não sai detrás de mim?


- Não tenho culpa, moça. Está apertado. Dá licença que eu passo!


- Isca. Pega!


- Que cheiro esquisito é esse?


- Quem foi o cara de pau que soltou o pum?


- Muuugi boi. Muuugi boi. Muuuugi....


-Auuuuuu....

Marco Pezão

domingo, 4 de outubro de 2009

Um dia cheio

- Ponte danada, ao menos uns quinze minutos pro trânsito escoar. Vamos aproveitar pra ensaiar de novo. Temos que fazer uma boa leitura, hoje.

O subtexto é: somos apresentadores de um programa jornalístico, de tv. Voz feminina e masculina, intercalando. Você começa:


- Por volta das dezoito horas, o bar do Everaldo, no largo do Campo Limpo, zona sul, está com a televisão sintonizada. Vários fregueses bebem assistindo ao noticiário.


- Pela avenida Carlos Lacerda, ônibus e lotações passam transportando os moradores da região. A periferia paulista estende-se além da divisa com os municípios vizinhos de Taboão e Embu.


- Densamente povoado, os dilemas sociais são patentes. A carência de ganho real é o maior problema enfrentado por todos. Sejam jovens ou adultos. Homens e mulheres se equilibram no meio fio da vida.


- Rafael, trinta anos, moreno forte, exibe respeito. Ele entra no bar e cumprimenta as pessoas. Teve um dia cheio. Sem dinheiro pra cerveja, conta moedas e pede um rabo de galo. Acomoda-se ao canto no balcão, e começa a refletir...


- Viera ao posto de saúde trazer a companheira. Ela, Iracema, empregada doméstica, durante toda a noite sofreu com náuseas e tontura...


- De manhã, não foi trabalhar. Ficou prostrada na cama. Nas duas vezes que tentou ir a cozinha sentiu-se desmaiar. Fraca, só não caiu porque conseguiu apoio na pia.


- Voltou ao quarto com a ajuda da vizinha, que divide o mesmo pequeno quintal e, por sorte, estava estendendo roupas no varal em frente à porta aberta.


- Rafael chegou em casa às 13 horas. Havia saído em busca de trabalho. Ultimamente vive de bicos na construção civil, mas conheceu épocas melhores quando empregado metalúrgico.


- Foi alertado na entrada por dona Terezinha. Da necessidade em levar Iracema a um médico, o mais rapidamente possível.


- Tratou arrumar carona com amigos. Amparada, Iracema entrou no carro. E, logo depois, estavam sendo atendidos na sessão de emergência.


- Diante do estado dela, o atendente providenciou uma cadeira de rodas, que, Rafael, empurrando, a conduziu pelo corredor lotado de pacientes.


- Para sua surpresa, o atendimento fora rápido. Uma forte gastrite, talvez, diagnosticou o doutor. Porém, o pedido de um exame de gravidez o deixou preocupado...


- Pensou nas dificuldades de mais um sustento. Tinham dois filhos e a necessidade habitava a pequena casa alugada. Injetada a droga a fim de conter o vômito, levou a mulher para tomar soro.


- Foi preciso aguardar. A sala estava lotada, não havia sequer um lugar.


- De repente, um médico exige que Iracema se levante. Pois só havia aquela cadeira de rodas no posto e outro paciente, em pior condição, necessitava.


- Rafael, então, pediu uma cadeira comum. Não tinha nenhuma. Iracema não conseguia se manter em pé. Tocou voltar ao corredor e uma pessoa cedeu espaço no assento do banco.


- Passado o tempo, uma certa irritação começou a caceteá-lo. Reclamou mais de uma vez, até que surgiu uma vaga. Iracema ficou lá. Pálida, zonza, braço estendido, observando a conta-gota do frasco e o líquido canalizado à veia perfurada.


- Agora, enquanto aguardava, Rafael bebericava. Na tevê, o apresentador, aos gritos, anunciava mais uma rebelião na Febem do Tatuapé. Interessados, os clientes acompanhavam o desenrolar da situação.


- Centenas de menores ganharam o telhado da instituição. Desafiantes, haviam queimado colchões. Quebrado vidros e móveis.


- O locutor narrava toda espécie de adjetivos: “Estão queimando o dinheiro público. É o contribuinte que paga a conta dos safados”.


- Exigindo ação enérgica do governador, da polícia, bradava: “Temos que acabar com a desfaçatez desses bandidos.”


- Quando a tropa de choque se posicionou com cachorros, cavalos, escudos, armas e cassetetes, tendo a intenção de invadir; o delírio emitido na telinha atingiu os espectadores:


- Agora esses vagabundos vão ver o que é bom pra tosse.


- Rafael sentiu-se incomodado. Lembrou dos amigos que cruzaram a linha da lei e da ordem. Dos que estão presos. Dos que morreram. Pensou em quantas vezes esteve perto de empunhar uma arma e partir pro crime.


- Nunca o fez.


- Vê a reportagem desejando que os 1800 infratores se unam de mãos dadas no teto e chamem atenção às suas reivindicações. Que são também os reclamos de tantos milhões de brasileiros...


- Assim como ele, os filhos, Iracema. E todos os marginalizados dentro do próprio país.


- O sentimento, mistura de angústia e revolta, teve origem naquele instante. E desejou sair dali, o mais rápido possível.


- Nisso, casualmente, é interceptado por um homem: “Se eu sou o comandante da polícia, mando explodir tudo e acabo com essa raça de malandros”.


- Sem dizer palavra, Rafael não pensou. Desferiu portentosa cabeçada no nariz do sujeito, que, nocauteado, ficou estendido, sangrando, contorcendo-se em dor.


- Sob efeito da expectativa, todos no bar ouviram-no dizer, antes de sair:


- Povinho de merda!


- Muuuuugi boi...


- Mééééé...


- Cócócórócócó...


- Coin,coin, coin...


- Auauuuu...

Marco Pezão

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Floripa num só gole

Tim, Valentim, Rogerio, Marcos, Jonathan e Marco Pezão, clicados pela Marinalva, no bar do Neto, se preparam pra pegar a estrada...

Um convite beira o balcão do Neto, Campo Limpo, sexta à noite, trouxe confirmação na segunda feira.

O Valentim, em negócios de leilão na Floripa capital, anunciou a viagem pra manhã de terça, 22.

Em termos de BR 116, meu conhecimento não ultrapassa entrada de Iguape.

O restante é novidade. Cruzar o estado do Paraná e chegar à Santa Catarina, nem pensar. Afigurava-se agora ocasião.

Fui, fomos! Dois carros e seis pessoas. No Audi, o Tim, o Marcão e mano Jonathan, dirigindo.

No comando da Parati, o Rogério. Valentim e Marco Pezão completam o time.

Se muito, depois de 50 km, é mato e morro. O agito da civilização vai ficando longe.

Cabeças olhos redor fixos. A minha, tanto aflita, percorre ao longo da rodovia.

O relógio apontava 10 horas, duas de rodagem, anuncia parada pro lanche.

O local, posto Graal. Em não estarmos na missão volante, eu e Valentim, santo grau. O trago que perpetuou nossa viagem.

Serra de Miracatu é apreensão. Cobra sinuosa rasga e escorrega pedra morro mato abaixo.

O arrepio se desfaz no Parque Federal de Jacupiranga, reserva de solidão profunda.

A paisagem abundante perde colorido verde em terra paranaense. Araucárias, pinheiros espetados.

O carro flui. Asfalto pra mais de metro. Em se perder de vista vamos à busca de um objetivo.

O leilão de sucatas da Companhia Elétrica de Santa Catarina é o agente da aventura, minha, porque os demais estão a trabalho.

Fazer retornar ao uso materiais recicláveis é a incumbência.

Comprar e vender é o princípio básico das relações humanas.

Eu foco. A conversa se alonga em silêncios. O cambiar da marcha, o freio.

O céu nublado nos acompanha. Intercalada e contínua chuva dispersa vapores nos giros pneumáticos.

Acelerados rumo ao almoço almejado às 15 horas em solo catarinense. Anchova grelhada é o prato concebido ao nosso desejo.

Curitiba. BR116 segue seu rumo. Velejamos na BR 101, e, além, prados e boiadas tomam espaço.

Miniaturas de bois, ó imensidão. Bananas, salames, queijos, vinhos, toalhas, e artigos de couro oferecidos demarcam retinias convidativas.

O percorrer beira mar nos aproxima. A Casa da Sereia nos atrai. Santa Catarina, castigada por intempéries do tempo, estamos!

Itapema, almoço, a mesa posta. O mar intenso. Um quadro. Ao longe, pequeno barco de pescador ancorado vaga. Cliques de satisfação. Eu e Valentim renovamos santo grau.

Deliciosamente comidos, comemos a distância. Dez horas após a saída deixamos para trás Blumenau e Camboriu.

Nuvens carregadas insistem. Enfim, a desativada ponte Hercílio Luz. Cruzamos o viaduto que liga o continente à ilha de Florianópolis.

No mirante paramos e avancei olhar à terra desconhecida que acrescentava milhares de pontos de luzes à noite estranha.

A marcha continuou pelo declive de nova serra.

O ar ganhou bom hálito quando batemos à pousada do João Correia.

O sabor sem miséria. Logo depois, bem alojados na beira do rio, acompanhados de bela gastronomia, comemoramos nossa chegada.

Intensa e breve estadia. No outro dia, o reconhecimento do material a ser comprado.

No caminho surge um boteco da antiga. Pastel delicia, cerveja, pinga com limão. A rapaziada tranqüila ficou de refri, mas o Valentim e o Pezão continuaram solidários com os copos, cheios, é claro.

Altos montes perfilam extensa área. Em descobrir a alma do cabo elétrico, tomei um choque. Olhos para quem quer ver.

De minha ignorância em não vê-lo, Brasil, dá um desconto. É convivendo que a gente aprende a conhecer as pessoas.

O deslumbramento natural. Canta o galo, campainha do celular do Valentim que não parava de tocar.

Os afazeres a serem conectados. Ligações, e-mails, os acertos pra espera do martelo aceleram.

Na correria brotou um sol meio tímido, mas suficiente pra aquecer a tarde.

Apressamos o almoço tendo a possibilidade de pegar uma praia. Mas, sem pressa, bolinhos de siri, camarões, filés de anchovas, merecem devida atenção.

Praia da Joaquina é o endereço. Areias mutantes recriam dunas. Embora o vento frio, atrevo. Ao mar lanço-me com alegria infantil.

Gaivotas planam. Um homem surfa no ar. Visão oceânica, o tudo, o todo, as ondas, os amigos.

Fazia-se mansa digestão, quando o inesperado refreou o deslumbre. O telefonema anunciou o adiamento do leilão.

Um machado que ceifa a árvore da possibilidade, a mensagem fez escorrer o satisfatório retorno do empreendimento.

Chocados e com fome, a razão de ali permanecermos não mais havia, no restaurante Extremo saboreamos a derradeira iguaria.

Por ironia, a saideira trouxe cachaça de má companhia. Solidários no protesto, Valentim e eu, não bebemos.

Ficou pra manhã seguinte, quinta feira, já perto do meio dia, quando de malas prontas e decididos a partir, referendamos meio litro de bento franciscano.

O sol se fazia pleno em meio ao cortante vento. O João Correia brindou a despedida com modas de viola. Viola de dez cordas, por ele construída com fino esmero.

Retorno, pradarias se ausentam. Mato, morro, o breu noturno, o asfalto molhado. Já é madrugada quando São Paulo se avizinha. Aos motoristas da empreitada ergamos nossa taça.

Taça repleta de pura cortesia: Rogério, Marcos, Jonathan e Tim.

Paladar traduz doce sal. Real impressão, Valentim e Pezão beberam Floripa num só gole...